Moda e ecologia são a tendência da vez: ‘é um caminho sem volta’

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RIO – Esqueça o tempo em que ser sustentável era um diferencial: se as marcas de moda querem ficar em sintonia com o século XXI, a preocupação com o meio ambiente e com a justiça social é uma necessidade. Esse é o recado de vários dos participantes desta terceira edição do Veste Rio, que tem justamente a sustentabilidade como um de seus principais temas de discussão.

— A preocupação socio-ambiental é um caminho sem volta: é premissa para os projetos. Hoje, um design que não é sustentável pode ser considerado um design ruim — resume Luiz Eduardo Rocha, um dos sócios da Zerezes.

Fundada em 2012, a marca de óculos carioca renovou o mercado ao apresentar armações feitas com madeira descartadas. A ideia de reaproveitar o material surgiu durante o boom da construção civil no Rio de Janeiro, mas a mudança no cenário econômico não impediu a Zerezes de encontrar outras formas de manter a filosofia do reaproveitamento presente.

— Em um primeiro momento, percebemos que muito da madeira da nossa própria produção também virava descarte: 30 a 40% do que era processado virava pó. Vimos que dava para otimizar isso e criamos uma linha composta por serragem. Depois, quando resolvemos trabalhar também com acetato, fomos recuperar maquinários, peças e chapas de antigos produtores que tinham ficado para trás quando a indústria nacional de óculos foi devastada pela chegada dos chineses, a partir dos anos 90 — explica Luiz, que participa amanhã, às 17h, da palestra “O descartável que virou negócio”, ao lado de Gabriella Corte Real (Estúdio Ripa), Gabriela Mazepa (Re-roupa), Eleonora Alves (DeninLab), e Adriana Gryner (Tem quem queira).

À frente da Malha, espaço de coworking sediado em São Cristóvão que reúne criadores, empreendedores e fornecedores, Herman Bessler também reforça a ideia de que a preocupação em construir uma cadeia de consumo equilibrada não é mais uma opção:

Ensaio Veste Rio Sustentável. Body Shii. Coordenação: Gilberto Júnior. Edição de moda: Lucas Magno. – Alex Santana

— Há uma compreensão que vem crescendo de que sustentabilidade não é só ambiental, é cultural e econômica também. Além disso, não é mais uma opção: é uma necessidade, da mesma forma que tecnologia também não é mais um nicho, e sim está presente em tudo — avisa.

Mediadora das palestras “Repensando a cadeia” e “O descartável que virou negócio”, a consultora de moda Chiara Gadaleta, referência em sustentabilidade no país, vê o cenário atual com otimismo. É ela a idealizadora do Prêmio Ecoera, responsável por movimentar a indústria criativa nos últimos anos.

— Um indicador interessante do desenvolvimento da indústria sustentável é a própria quantidade de inscritos no Prêmio Ecoera desde a primeira edição, em 2015. No ano passado, o número de inscritos dobrou e aumentamos uma categoria: agora temos também um prêmio de design, além de moda e beleza. Isso é prova de que existe uma quantidade substancialmente maior de marcas com práticas conscientes ou que querem questionar a sua cadeia de valor — avalia Chiara, que abre as inscrições para o Prêmio Ecoera 2017 hoje, no Veste Rio, às 18h.

MARKETING DO BEM

Além de repensar internamente a produção, um desafio importantíssimo para as marcas é fazer com que a mesma ideia chegue às demais pontas da cadeia. Herman Bessler destaca a educação do consumidor como uma ferramenta fundamental não só no processo de conscientização, mas para quebrar mitos e preconceitos quando se emprega a palavra sustentabilidade.

Sobreposição de maiô manga longa e regata gola alta com vestido amarrado na cintura, tudo Movin - Alex Santana

— Nem tudo que é sustentável é artesanal, e nem necessariamente mais caro. Existem produtos que são fabricados, mas dentro de uma cadeia justa, e há várias marcas que conseguem vender por um preço acessível — observa ele, ao destacar que essa informação precisa ser compartilhada. — Há marcas que fazem o marketing no pré-compra. É um trabalho de educação do mercado, de levar conteúdos, conceitos, palestras e artigos para mostrar o que está presente no produto — explica.

Foi justamente esse o tipo de estratégia aplicada pela Zerezes em um dos seus momentos mais desafiadores, quando resolveu incluir um novo material em sua linha de produção. Após o sucesso avassalador com os óculos de madeira, os sócios consideraram importante introduzir o acetato, mais maleável para a criação de armações, para garantir que a marca não deixasse de inovar no design. Porém, havia o receio de como o público receberia a novidade.

— Vimos que o material não era a coisa mais forte do trabalho: afinal, você pode ter um óculos de madeira reaproveitada que é feito com trabalho infantil. No caso do acetato, fomos descobrindo, de forma completamente local, pessoas que trabalham com a matéria-prima. A partir daí, surgiu um projeto que tirou esses produtores dos bastidores. Disseminamos vídeos que mostram o trabalho dessas pessoas e tivemos uma resposta muito bacana — comemora Luiz Eduardo.

A transparência no diálogo com o consumidor, aliás, não é a única vantagem das marcas que adotam a sustentabilidade como premissa. Para Herman, os empreendedores que surgem dentro de uma nova lógica do consumo já saem ganhando diante do cenário de crise econômica.

— Essa crise não é do nosso modelo, é do modelo tradicional. A crise privilegia novos padrões e a gente entra nesse lugar do mercado. Nesse primeiro ano de Malha, posso dizer que entre as marcas que trabalham conosco, vimos um consumidor mais ativo, que tem uma preocupação com o que passou pelo produto e que compra uma experiência.

O mesmo fenômeno, resultado de um consumidor que reflete mais antes do ato da compra, foi sentido na Zerezes ao longo do ano:

— Não sentimos a crise. Enquanto marcas do mesmo segmento estavam fechando operação, fomos na contramão e surgimos como alternativa: o consumidor via na gente uma escolha bem feita — aponta Luiz Eduardo.

Fotos: Alex Santana. Coordenação: Gilberto Júnior. Edição de moda: Lucas Magno. Beleza: Paula Sholl. Modelo: Juliana Nalu (Mix Models Agency). Tratamento de imagem: Luiz Lontra.

 

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