Racionalizar ambientalmente o uso da matéria-prima gera economia

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A atuação das empresas na inovação de ações ambientais e no combate às mudanças climáticas é fundamental. Reconhecer e disseminar as melhores atitudes é o papel do Prêmio ÉPOCA Empresa Verde 2017. Um dos idealizadores da premiação, o especialista em sustentabilidade empresarial Ernesto Cavasin é diretor financeiro do grupo SinAgro. Ele também foi presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Carbono (ABEMC), de 2008 a 2015. Cavasin comenta sobre equilíbrio, transparência empresarial e o cenário global das instituições brasileiras relativo ao assunto.

ÉPOCA – Para que serve o Prêmio ÉPOCA Empesa Verde?
Ernesto Cavasin – Eu vejo que as questões de sustentabilidade estão cada vez mais se encaixando como potenciais geradores de receita. Ou seja, um gerador de diferencial para as empresas. Hoje, as instituições que possuem isso geralmente são as que lideram seus setores. Além disso, mesmo em tempos de crise a competitividade no mundo tende a aumentar. Antigamente as pessoas comparavam os produtos e serviços pelo preço e pela qualidade, mas a tendência do mercado é ter cada vez mais indicadores comparativos. Vejo que a sustentabilidade vai se juntar a esses parâmetros. Então, sem dúvida nenhuma, a importância do Prêmio ÉPOCA Empresa Verde é mostrar como os líderes agem para disseminar o conhecimento e essas relações de sustentabilidade a todas as outras.

> Perguntas e respostas sobre o Prêmio

ÉPOCA – Por que as empresas precisam de transparência?
Ernesto Cavasin – Transparência e equilíbrio geram confiança e são importantes na busca por consolidação. Uma empresa equilibrada na parte financeira, ambiental, urbana e social tem condições de alcançar a perenidade, que gera mais valor para as empresas. Não adianta investir fortunas em sustentabilidade se tratar mal os funcionários, fornecedores ou clientes. Se ambientalmente as organizações conseguem racionalizar os usos da matéria-prima, isso gera economia no final do dia. E se elas possuem um bom diálogo com os fornecedores, clientes e funcionários, as pessoas vão querer fornecer, a clientela estará apoiando e os trabalhadores estarão satisfeitos e produzindo mais. Financeiramente, toda vez que as empresas tiverem capacidade de gerar valor, elas poderão investir mais nas melhorias das próprias ações, seja na produção ou diretamente no meio ambiente. Um ciclo virtuoso. A questão da transparência é muito simples. Hoje, não adianta parecer, você tem de ser.

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ÉPOCA – Como separar o marketing das ações reais?
Ernesto Cavasin – O Prêmio, por exemplo, serve para popularizar essas ações. Usar o marketing da sustentabilidade é um ponto positivo por si só, ou seja, se declarar sustentável tem valor. Alguns anos atrás, por volta de 2010, existia uma discussão sobre green wash [lavagem verde], que era sobre as empresas que se diziam sustentáveis, mas não eram. É um ditado brasileiro, a gente sabe que mentira tem perna curta. Como a empresa quer a credibilidade trazendo uma mentira? Vejo que a longo prazo empresas assim terão problemas de credibilidade da marca ou com contratempos de ordem trabalhista, ambiental ou financeira. O caminho até a construção de uma reputação é longo, ninguém constrói uma carreira em uma semana ou uma marca em um dia. Atualmente, no Brasil, existem empresários que construíram carreira, montaram grandes empresas e não podem ir para a rua, pois são reconhecidos como bandidos. Volto a dizer, o equilíbrio e a transparência são o caminho para buscar a perenidade.

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ÉPOCA – As empresas brasileiras estão bem no cenário global?
Ernesto Cavasin – O Brasil é gigante, tem uma vasta diversidade de empresas. A gente tem instituições que são muito boas, extremamente responsáveis. O que consigo ver é que a sociedade brasileira tem um entendimento sobre a necessidade do equilíbrio ambiental muito maior do que a média mundial. Tive contato com um estudo de 2012 que mostrava que o conhecimento do brasileiro sobre sustentabilidade era superior ao da média do mundo, só perdia para a União Europeia. Não é à toa que o tema está cada vez mais na mídia, todos os jornais têm colunistas que tratam sobre o assunto. Esse conhecimento permeia a sociedade brasileira, o consumidor. Tive a oportunidade de trabalhar na Bolívia, na Polônia, na África, na Alemanha, tanto a trabalho como pelas Nações Unidas, nas conferências que ia participar. Todo país discute isso, mas as ações são diferentes. Na América do Sul, a capacidade das ações das empresas brasileiras, seja pelo tamanho, pela capacidade de mercado, pela geração de renda, lidera isso. Mesmo no Chile e na Colômbia, que têm economia forte, as instituições vêm buscar referências de boas práticas ambientais no Brasil. Além disso, somos um exportador de profissionais nessa área. Na Malásia, por exemplo, encontrei profissionais brasileiros liderando projetos dessa natureza, na América do Sul não é diferente.

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ÉPOCA – Por que as empresas brasileiras não faturam mais com as ações ambientais no cenário internacional?
Ernesto Cavasin – Quando vejo faturamento sobre a perspectiva da quantidade de notas fiscais emitidas, financeiramente, penso que em algum ponto o Brasil consegue se destacar. O etanol e alguns outros produtos com esse viés ambiental são exportados, por exemplo. Mas, quando falamos em faturamento de prêmios, de iniciativas premiadas, temos um problema. O Brasil tem um volume bom de ações, mas há uma deficiência em criar novas tecnologias. Atualmente, a energia eólica é bem trabalhada, mas não foi criada aqui. Trouxemos, desenvolvemos e adaptamos, mas a consolidação da tecnologia se deu na Europa. O mesmo aconteceu com a energia solar, concentrada principalmente na China e nos Estados Unidos. Apesar de termos ações isoladas, na relação de prêmios a concorrência mundial é imensa. Mas, a meu ver, onde a gente ganha não é na conta em cifrões, é na conscientização da população. A sociedade tem entendimento de que isso é importante e cobra das empresas de forma efetiva. Esse é o principal diferencial.

ÉPOCA – As empresas têm inovado em ações ambientais?
Ernesto Cavasin – Algumas avançam e outras regridem. A meu ver, a partir do momento em que as regulações ficaram mais restritas, a criatividade para novas ações também foi punida. Não digo que tudo o que tem sido criado é perfeito, mas o estímulo à inventividade é a premiação e a orientação da inovação. Essa é a forma mais rápida para evoluir nesse sentido. Além disso, não posso deixar de ampliar, na década passada partimos do zero para uma jornada muito estimulante. Agora não partimos mais desse zero, e às vezes isso pode deixar a sensação de que estamos patinando com relação às ações ambientais. Acredito na necessidade de mais liberdade para agir, pois assim as soluções aparecem mais rápido. Outro ponto importante é que os países desenvolvidos estimulam a inovação. Em contrapartida, vejo que países em desenvolvimento estão mais preocupados em criar fundos financeiros do que soluções. Não é o dinheiro que vai resolver os problemas, mas sim a vontade das pessoas.

ÉPOCA – Qual é o papel do setor privado no caminho para um mundo mais sustentável?
Ernesto Cavasin – É integral. Governos não produzem nada, só regulam. As soluções vão surgir nas universidades e empresas. E as melhores iniciativas vão vir da confluência entre academia e iniciativa privada. Governos são importantes reguladores e devem exercer esse papel de forma efetiva, mas não trazem soluções. Em contrapartida, quando o governo regula demais, criando dificuldades e diversas arestas, diminui assim a capacidade de achar novas ideias por falta de estímulo. Logicamente, as regras têm de ser colocadas na mesa de uma forma clara. Quando Paris age mais preocupada em criar regras do que dar liberdade e orientação, diminui a capacidade de encontrar novas soluções. O problema da mudança do clima não é originado por só uma ação. Ele é gerado por diversos tipos de situações, como desmatamento, consumo de petróleo desenfreado, desgelo do ártico polar e variados acontecimentos que potencializam esse fenômeno. Então, nós não vamos achar uma só solução para isso. É um conjunto de milhares e pequenas soluções.

ÉPOCA – Qual é o papel do consumidor com relação à escolha das empresas?
Ernesto Cavasin – Se há um ator da sociedade que deve ter escolhas de forma consciente é o consumidor. Por coincidência, é a mesma pessoa que vota. Tudo o que se busca e se planeja com relação às ações ambientais finda no consumidor, que somos todos nós. Ou seja, se o consumo afeta o planeta, o consumo afeta minha vida. A escolha do voto também afeta minha vida e afeta o planeta. Sendo assim, qualquer ação das instituições que não esteja focada nas pessoas que vão usufruir isso, nos interesses dos consumidores, não faz sentido nenhum. O consumidor, hoje, tem de estar informado e pronto para escolher da melhor maneira. Quando vejo que a média da sociedade brasileira tem um conhecimento razoável do assunto, a tendência é que as empresas do país tenham de estar mais preparadas do que a média do mundo. E é essa cobrança que a gente vai ver dia após dia. Nós passamos por uma crise financeira e as prioridades devem mudar um pouco, mas elas não devem ser dissipadas. Elas podem ter tirado do peso de avaliação do consumidor e da sociedade alguns pontos, mas elas nunca serão nulas.

As empresas com boas práticas ambientais já podem se inscrever no Prêmio ÉPOCA Empresa Verde 2017 até o dia 16 de julho.

http://inan.org.br

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