BH tem um assalto a cada 20 minutos

0
399

 

A volta das férias não foi nada agradável para a gerente de restaurante Bernadette Crosara. Assim que chegou à cidade, depois de alguns dias de descanso em Maceió com a filha, ela foi avisada do roubo das centenárias joias de sua avó, uma herança de valor sentimental, além de financeiro. Foram levados também perfumes, bebidas, aparelhos eletrônicos e dinheiro. Sua empregada, Beatriz Aparecida de Almeida, foi rendida por uma quadrilha de saqueadores de residências e passou quatro horas sob a ameaça dos assaltantes, que a usaram para ter acesso a três apartamentos do edifício no Sion. “Um ficava roubando e o outro só ameaçando. Eles brincavam com as armas, diziam que poderiam matar todo mundo a qualquer momento”, conta a doméstica, que ainda fica nervosa ao relatar o episódio, ocorrido em abril. “Depois de uma coisa dessas, a gente fica meio paranoica”, desabafa Bernadette. “Todos os moradores do prédio estão com muito medo.” Em uma das unidades invadidas, os bandidos picharam as paredes com a expressão “Bonde do 157”. É uma alusão ao artigo 157 do Código Penal, que trata do crime de roubo. O número de ocorrências como essa em Belo Horizonte cresceu 17% no primeiro semestre de 2013 em comparação com o mesmo período do ano passado. Aconteceram, em média, três assaltos por hora. Desde janeiro, a capital registrou 15 893 crimes violentos contra o patrimônio, a classificação que engloba roubo e extorsão mediante sequestro.

Por trás da assustadora estatística há relatos ora amedrontados, ora indignados de belo-horizontinos que foram vítimas de diversas modalidades do crime. Ao conversar com a reportagem, o empresário J.C.S. tinha a voz marcada pela exaustão. Apenas no último mês, ele sofreu dezesseis assaltos em sua transportadora. Anda tão temeroso que prefere não ser identificado. O modus operandi dos bandidos é sempre o mesmo: fecham o carro da empresa no meio da estrada e levam todo o conteúdo do veículo. No dia 14, eles entraram armados no galpão de armazenamento e fizeram ameaças a ele e aos funcionários. “Eu parecia viver um pesadelo mesmo estando acordado”, diz o empresário, que não sabe até quando seu negócio resistirá se o bando ficar solto. Como medida emergencial, ele contratou seguranças particulares. “Mas isso é insustentável por muito tempo, pois o que a empresa fatura não dá para cobrir esse tipo de despesa.”

Não é somente o comércio que está pagando caro por segurança complementar. O empresário Gilson Arantes investiu 12 000 reais em câmeras, alarmes e dois cães da raça pastor-alemão, que estão sendo adestrados para atacar possíveis arrombadores. Arantes ainda rateia os serviços de um vigia com cinco vizinhos no bairro Belvedere, onde mora. A decisão foi tomada depois que assaltantes entraram em sua residência, no fim do ano passado, rendendo seus dois filhos e três funcionários. “A polícia tem boa vontade, mas a infraestrutura é arcaica”, afirma. No bairro São Bento, o bancário aposentado Paulo Roberto Pereira Campos adotou uma medida similar. Apesar de contar com um segurança na rua há oito anos, pago por um grupo de moradores, em março ele resolveu reforçar as medidas e instalar dezesseis câmeras na Rua Cônsul Robert Levy. “Podemos acessar as imagens pelo celular”, explica Campos.

Presidente da Associação de Moradores do Santo Antônio, Gabriel Coutinho indigna-se com o que considera omissão do estado em relação à segurança pública. “Pagamos impostos para isso.” No dia 20, Coutinho e outros moradores do bairro, além de representantes do São Pedro, reuniram-se com a polícia para cobrar providências contra os arrombamentos e assaltos realizados por duplas em motocicletas. “Queremos o tratamento que o Belvedere recebeu”, afirma Carlos Rocha, diretor da Associação de Moradores do Bairro São Pedro, referindo-se ao aumento do número de PMs no bairro depois de uma onda de assaltos por lá, no ano passado. A mesma reivindicação foi apresentada, no dia 21, por um grupo de estudantes da universidade Fumec, instalada no Cruzeiro. Os jovens criaram uma campanha virtual para pedir mais segurança no entorno da escola, onde são frequentes os assaltos e arrombamentos de carros.

Nem mesmo em locais com grande movimento e próximos de postos policiais os belo-horizontinos se sentem seguros. “Nunca imaginei que pudesse ser assaltado em pleno horário de almoço, no Centro”, diz o empresário Thiago Lima de Azevedo, vítima da ação conhecida como saidinha de banco na movimentada Rua dos Timbiras, há pouco mais de um ano. O estudante de comunicação social Frederico Paco também se surpreendeu quando sofreu uma ameaça de sequestro-relâmpago na porta da casa de sua namorada, a 550 metros de um posto policial no bairro Anchieta. Mais alarmante que os números é a sensação de que o problema, crônico na maioria das grandes metrópoles brasileiras, não será resolvido com facilidade. As vítimas reclamam que as ocorrências, em sua maioria, não são solucionadas. Os autores dos crimes não são sequer identificados. Chefe do primeiro departamento da Polícia Civil de Belo Horizonte, o delegado Anderson Alcântra diz que cobrar ações somente da polícia não é suficiente. “O conflito está instalado, e o cidadão tem de se prevenir”, alerta ele, que aconselha os moradores a aderir a programas de monitoramento entre vizinhos. “Adolescentes entram no crime e morrem jovens, é um desperdício de vida”, diz a juíza Luziene Barbosa Lima, da 6ª Vara Criminal. No gabinete da juíza – que em abril teve sua casa, no São Bento, invadida -, 90% dos delitos têm relação com o universo das drogas.

Enquanto os números crescem, a população se aflige com o risco de que a arma apontada durante um assalto provoque uma tragédia. Não faltam tristes exemplos disso, como a morte da atriz Cecília Bizzotto, em outubro de 2012. O que começou como um assalto em sua casa, no São Bento, acabou em homicídio quando um dos bandidos atirou contra o peito da moça. No mês passado, os três envolvidos no crime foram condenados a penas que variam entre 24 e 33 anos de detenção. A sentença, no entanto, não conseguiu devolver a paz à família da jovem. “A gente apenas busca se acostumar com ela (a ausência) e seguir vivendo, mesmo querendo morrer de tanto que dói”, escreveu sua mãe, Cláudia Bizzotto, no blog em que costuma falar de suas lembranças com a filha. O que os belo-horizontinos esperam é que outras mães não tenham de passar por martírio semelhante.

Apreensão no ar
Em todos os meses deste ano, o número de roubos em BH superou o registrado em 2012

Janeiro
2012 – 1 842
2013 – 2 164

Fevereiro
2012 – 1 802
2013 – 1 994

Março
2012 – 2 081
2013 – 2 393

Abril
2012 – 2 133
2013 – 2 524

Maio
2012 – 2 025
2013 – 2 274

Junho
2012 – 1 908
2013 – 2 099

Julho
2012 – 1 753
2013 – 2 445

Fonte: Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds)

compartilhe:
  • Twitter
  • Facebook

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA