Lojas em BH torram estoque para fechar as portas

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A crise pegou o comércio em cheio, sacrificando, em especial, lojistas sem alternativa para evitar o derradeiro fechamento do negócio. Em várias regiões de Belo Horizonte, eles se lançam à política do tudo ou nada para tentar diminuir os prejuízos. Estratégias a exemplo de corte dos preços das mercadorias, usado ao último grau, e promoções de queima de estoques para o encerramento das atividades se multiplicam, numa realidade que não escolhe endereço, presente em bairros tradicionais, como Barro Preto e Centro, além da Savassi, Zona nobre de BH. Há casos de produtos vendidos abaixo do preço de custo, segundo os comerciantes espremidos pelos livros de caixa no vermelho.

Lojistas e gerentes de estabelecimentos que tomaram a drástica decisão afirmaram à reportagem do Estado de Minas que os clientes sumiram e nem mesmo optando pelas liquidações tem sido fácil recuperar parte do investimento feito na empresa. A dificuldade de o comércio atravessar o deserto da crise se traduz em números preocupantes. De acordo com dados da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg), de janeiro a março o fechamento de lojas no comércio em Minas Gerais aumentou 74,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Em Belo Horizonte, o crescimento chega a 89%. Ainda assim, as estatísticas são apenas um recorte da realidade, já que os empresários não são obrigados a informar o encerramento das atividades à Jucemg.

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

Levantamento da entidade indica que foram fechadas, no primeiro trimestre, 692 lojas na capital mineira, ante 366 no período equivalente de 2015. Em Minas, 2.360 lojas fecharam as portas de janeiro a março do ano passado, sendo que, no mesmo intervalo de 2016, 4.125 estabelecimentos encerraram atividade.

Faixa estendida sobre o letreiro da loja de calçados Carolina, na Avenida Afonso Pena, no Centro de BH, revela o porquê da liquidação: o encerramento das atividades. Desde o início do mês, funcionários, todos cumprindo aviso-prévio, têm o desafio de queimar o estoque até dia 30, quando a loja será fechada, depois de sete anos em funcionamento no endereço. Os preços caíram até 50%. “As vendas tiveram queda de 30% por causa da crise. O faturamento diminuiu e a despesa aumentou, com os custos maiores das mercadorias e do aluguel”, explica o gerente Cristiano Nonato, que ficará desempregado no mês que vem.

Na Rua Antônio de Albuquerque, no coração da Savassi, um banner enorme em frente a loja Mercado das Marcas anuncia: “Preço máximo R$ 40”. Segundo a gerente, Letícia Germano, a crise começou com a revitalização da Praça da Savassi, que suprimiu vagas de estacionamento nas ruas, ao fechar os quatro quarteirões no entorno do cruzamento das avenidas Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo.

O quadro se agravou com a turbulência econômica pela qual o Brasil atravessa, o aumento do aluguel e a alternativa foi saldar tudo e fechar as portas. “A loja chegou a vender R$ 100 mil por mês, receita que caiu gradativamente, para R$ 70 mil, R$ 30 mil e hoje não alcança R$ 10 mil”, afirma Letícia. O encerramento das atividades ocorre depois de mais de 10 anos do ponto. Para clientes, abre oportunidade. “Havia mercadorias aqui que eram vendidas a R$ 150. Agora, o preço máximo é de R$ 40”, explica Letícia.

Remanejamento Na loja de roupas femininas Flash, na Avenida Augusto de Lima, no Barro Preto, o clima é de “torra total”. Depois de mais de oito anos em atividade, o estabelecimento vai fechar as portas. “As vendas caíram 50%. O que estamos tentando é remanejar os funcionários para outras lojas que são de parentes da dona para, pelo menos, não desempregar”, afirma a supervisora Maria Aparecida Rosa.

A empresa vendia roupas de festa e oferecia peças a preços variando de R$ 300 a R$ 5 mil. Para tornar a “torra total” mais atrativa, foram acrescentadas ao mix de produtos roupas casuais e os preços passaram a variar de R$ 5 a R$ 40. “Mas era para estarmos vendendo muito mais. Estamos liquidando há mais de dois meses”, afirma Maria Aparecida, reforçando que a realidade não é exclusiva da Flash e que todo o comércio do Barro Preto está sentindo a crise.

Mau resultado

As vendas do comércio varejista de Belo Horizonte diminuíram 1,7% em janeiro, ante o mesmo mês de 2015, com base em indicadores do setor analisados pela CDL-BH. Trata-se do pior resultado, nessa base de comparação, da série histórica de dados da instituição desde janeiro de 2008. O mau desempenho é debitado à desaceleração da economia, associada ao aumento da inflação e do desemprego, que afetam a renda da população. A inadimplência é outro reflexo da crise que complica a situação do comércio. Em BH, houve crescimento de 4,73% do número de pessoas físicas inadimplentes em fevereiro, comparado a idêntico período de 2015, ainda segundo o levantamento da instituição que representa a atividade.

 

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

 

TRÊS PERGUNTAS PARA…

 

Leandro Couri/EM/D.A Press - 12/5/15

Bruno Falci
presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH)

O empresário deixou de investir ou o dinheiro realmente sumiu?
As duas situações são verdadeiras. Há empresário que deixou de investir e está com o dinheiro parado no banco. Não investe porque não tem confiança na economia. Fizemos pesquisa recentemente que mostra que as micro e pequenas empresas acreditam menos nas políticas públicas. E há também aquele empresário que está lutando para sobreviver e não fechar as portas. O cenário político está destruindo o país.

O que o empresário deve fazer neste momento de crise?
Temos que manter a esperança. O Brasil é maior do que a crise. Ela vai passar e os empresários vão ficar. Estamos atravessando um deserto. Alguns ficarão no meio do caminho, mas outros vão sair do deserto e encontrar uma terra boa.

Quais são as estratégias para sair da crise?

O comerciante tem que estar atento à produtividade dos funcionários, ao mix de produtos, estando atento também a produtos novos. É importante não inchar o estoque e fazer promoções em épocas adequadas. Com essas atitudes, ele tem chance maior de sobreviver à crise. É preciso operar com a empresa enxuta e produtiva.

Fonte: UAI

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