Empregos do futuro estão na energia renovável

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INSTITUTO INAN – Em um momento em que o presidente americano Donald Trump promove o desmonte das políticas energéticas ambientalmente limpas do ex-presidente Barack Obama, o norueguês Erik Solheim, 62 anos, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Pnuma, reafirma o que vem sendo dito por analistas: que os empregos do futuro estão na indústria da energia renovável. “Se criar empregos é prioridade, energias renováveis fazem todo sentido”, diz.

O estímulo aos combustíveis fósseis pode ameaçar os próprios EUA com risco de “perder grande volume de empregos que irá acontecer em outras partes do mundo”, diz Solheim, ex-ministro do Desenvolvimento e do Meio Ambiente da Noruega. A transformação rumo à economia verde é um movimento que “não pode ser contido por decreto”, diz. “As oportunidades demprego no setor de energia solar crescem 12 vezes mais rápido que o resto da economia dos EUA”, compara.

Solheim foi um dos arquitetos do Fundo Amazônia, chefiou o comitê de assistência ao desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e agora está em cruzada mundial no combate à poluição – vetor que mais causa mortes prematuras no mundo. Nos EUA são ao menos 200 mil ao ano, mais que o dobro do total das vítimas de Alzheimer. Os cortes no orçamento da agência ambiental americana, a EPA, tendem a piorar o quadro já que transportes são a grande fonte de poluição do ar.

Outra previsão perturbadora é que a estima que em 2050 haverá mais plásticos nos oceanos do que peixes. Solheim defende uma “nova economia do plástico” em que se garanta que sejam recicláveis e degradáveis. “E que o plástico, que é um material muito útil, seja usado apenas onde necessário”, diz.
Pragmático, mudou o nome Pnuma para ONU Ambiente (UN Environment), para ampliar a compreensão de suas mensagens. Em visita ao Brasil, deu uma entrevista exclusiva , onde comenta a agenda ambiental em cenário global de governos populistas: “Não é uma questão da esquerda ou da direita”. Aqui, trechos da entrevista:

Jornalista: O que o senhor pensa da decisão “Energy Independence” tomada por Donald?
Erik Solheim: Esta não é a hora para nenhum país mudar de rota diante das ameaças muito sérias e muito reais da mudança do clima. A ciência nos diz que precisamos de ações mais ambiciosas e fortes. Se o que queremos são energias limpas e confiáveis, crescimento econômico e mais e melhores empregos, então a resposta está em um futuro de baixo carbonenergizado com renováveis. Quando se discute carvão temos que olhar para os números. As oportunidades de emprego no setor de energia solar crescem 12 vezes mais rápido que o resto da economia dos EUA. Eram 300 mil empregos em 2015 e chegaram a 374 mil em 2016, ultrapassando os da extração de petróleo e gás [187 mil] ou carvão [68 mil]. Solar também gera mais empregos por dólar investido – mais que o dobro do que os empregos criados pelos investimentos em fósseis. Então, se criar empregos é prioridade, energias renováveis fazem todo sentido. E também tem que se considerar o setor privado e dos Estados. Mais de 24 Estados nos EUA estão fazendo esforços para reduzir as emissões.

Jornalista: Mas os movimentos do governo Trump até agora são de privilegiar os combustíveis fósseis.

Solheim: Ninguém, nem mesmo a pessoa mais poderosa do mundo, pode parar as marés da História. Todos podem ver qual é a direção: é a economia verde e as energias renováveis. Todos vemos os avanços da tecnologia, e muitas das tecnologias que estão fazendo a virada verde vêm dos Estados Unidos. Isso não pode ser detido por um decreto político. E mesmo que pudesse, a China, o Brasil, a Europa seguiriam adiante, o que seria uma grande ameaça para os próprios EUA. Porque vão perder um grande volume de empregos que irá acontecer em outras partes do mundo. Se você encontrar um investidor que pense que o futuro dos EUA está mais nas minas de carvão da Virginia Ocidental do que na enorme mudança tecnológica que ocorre na Califórnia, me diga onde o encontrou.

Jornalista: As decisões de Trump podem contaminar os negócios?

Solheim: A mudança pode ficar mais vagarosa, mas não pode ser detida porque as forças são fortes, inclusive nos EUA. A China tem trazido tecnologias a preços bem mais baixos, o que ajuda muito. Entre 30% e 50% do mercado de energia eólica mundial está na China, o mesmo para solar. Estão acontecendo movimentos enormes na China, que as pessoas de fora ainda não conseguem perceber.

Jornalista: Quais?
Solheim: A China saiu da postura em que dizia “Só iremos agir quando os EUA e outros o fizerem também”, para “Estamos fazendo isso porque a mudança do clima é muito danosa para a China e porque a poluição é tão forte em Pequim e Xangai que precisamos mudar para o nosso próprio bem.”

jornalista: Mas a China ainda depende muito de carvão.
Solheim: É verdade. Mas os chineses decidiram reduzir o impacto do carvão na economia e migrar para renováveis. Acabam de decidir construir usinas gigantes de energia solar e eólica, são grandes investimentos. Acredito que veremos mudanças rápidas por lá.
“Ninguém, nem mesmo a pessoa mais poderosa do mundo pode parar as marés da História. A direção é a da economia verde”

Jornalista: Os chineses podem ocupar o espaço de liderança dos EUA?
Solheim: Podem. Mas nada é melhor do que ver a associação de esforços entre China e EUA. E veja, precisamos da liderança dos EUA agora mais do que nunca. A porta irá se fechar para o objetivo de limitar emissões a 1,5° C a menos que os países aumentem sua ambição antes de 2020. Temos uma pequena janela de oportunidade.

Jornalista: A proposta de corte no orçamento enviada por Trump ao Congresso zera o envio de recursos dos EUA ao Green Climate Fund e a outros fundos do gênero. Quais as implicações disso?
Solheim: As ameaças ao nosso planeta, incluindo a mudança do clima, são um desafio global que nenhum país pode resolver sozinho. É por isso que uma resposta internacional coordenada é necessária. O papel das Nações Unidas é de enfrentar este e outros problemas globais com o apoio e o interesse dos Estados-membros. Este é um esforço de equipe em que todos precisam ajudar da melhor maneira que puderem.

Jornalista: Como o senhor vê o grande corte no orçamento da agência ambiental americana, a EPA?
Solheim: Proteger o ambiente não é algo que pode ser feito de graça. Exige compromisso e, claro, dinheiro. Ao mesmo tempo temos que ver que os dividendos excedem de longe os investimentos na área. Por exemplo, combater a poluição traz enormes benefícios à saúde pública e reduz a tensão sobre os sistemas de saúde. Investir em energias renováveis ajuda a melhorar a segurança energética e cria empregos melhores.

Jornalista: Como vê a decisão de Trump para que a EPA revise os padrões de emissão e eficiência dos veículos nos EUA?
Solheim: Entendemos que o governo dos EUA irá fazer uma revisão completa para garantir o melhor negócio aos consumidores e ao ambiente. Fixar objetivos rigorosos de emissões -não apenas para veículos, mas também para a indústria- irá beneficiar ambos. Poluição é tema de preocupação de saúde pública, causa milhões de mortes prematuras todos os anos no mundo. São pelo menos 200 mil mortes prematuras por ano nos EUA, mais que o dobro do total de pessoas que morrem de Alzheimer. Transporte é a maior causa da poluição do ar, e é vital que os cidadãos estejam protegidos.

Jornalista: Se Trump recuar no Acordo de Paris, há sentido em se seguir adiante sem os EUA?
Solheim: Se isso acontecer, acredito que o maior dano será para os próprios EUA, com o risco de novos empregos migrarem para outro lado do mundo. A experiência histórica mostra que os que se prendem ao velho são os perdedores e os que abraçam o novo são os vencedores da economia global. Por isso os EUA foram tão bem-sucedidos na última década, sempre foram capazes de abraçar o novo.

Jornalista: Falando em novo: o Pnuma mudou de nome?
Solheim: Mudamos para ONU Ambiente pela simples razão que temos que alcançar um grupo maior de pessoas além das já convertidas ao ambientalismo. Temos que falar com todo mundo e falar uma língua que as pessoas possam entender, de modo a encorajar as pessoas a se engajar na causa ambiental. Não mudamos em termos formais porque aí precisamos da aprovação da Assembleia Geral. Mas todo mundo fala Brasil e não República Federativa do Brasil, é a mesma ideia. Francamente, vou a muitas reuniões das Nações Unidas e as pessoas falam de um jeito que nem eu consigo entender.

Jornalista: Uma de suas prioridades é combater a poluição. Por quê?
Solheim: Por duas razões. Primeiro porque é o vetor que mais mata no mundo. Fomos bem sucedidos com o que mais matava no passado, como malária e varíola, e agora é a poluição que encurta a vida. Em segundo lugar, porque é uma boa maneira de enfrentar a mudança do clima. Poluição é algo mais próximo às pessoas. Quando há muita poluição as pessoas logo sentem impactos na saúde. Então também é um jeito de fazermos o que tem que ser feito para o planeta. Queremos tornar isso um movimento de cidadãos, ajudar governos a fazer políticas para reduzir a poluição e auxiliar o setor privado a ter novas tecnologias para que isso aconteça rápido. Não só na poluição do ar, também da água, os plásticos, todo tipo.

Jornalista: O senhor defende uma “nova economia do plástico”. O que quer dizer?
Solheim: As previsões dizem que em 2050 haverá mais plásticos nos oceanos do que peixes, se continuarmos a colocar mais e mais plásticos dentro do mar. Temos que garantir que os plásticos que produzimos sejam recicláveis e degradáveis. Que possamos embalar nossa comida em algo que possa ser comido. E que o plástico, que é um material muito útil, seja usado apenas onde for necessário.

Jornalista: Como a mudança pode ocorrer? A resposta é tecnológica?
Solheim: Com a ação de cidadãos pedindo mudança, pedindo que limpem suas praias e seu bairro. Em Ruanda as sacolas plásticas são proibidas e Kigali [a capital] é de longe a cidade mais limpa da África. No Reino Unido colocou-se uma taxa na sacola plástica, o que reduziu o uso em 90%. A mudança é fruto de liderança política, movimento dos cidadãos e novos produtos. Se os políticos regularem os mercados, será muito rápido. A habilidade do setor privado de inventar novos produtos é fantástica.
“Em 2050 haverá mais plásticos nos oceanos do que peixes, se continuarmos a colocar mais e mais plásticos dentro do mar”

Jornalista: Como avança o debate dos produtos químicos e o ambiente?
Solheim: Produtos químicos estão em basicamente tudo o que usamos, mas não se pode destruir a natureza. Se produzimos plásticos não podemos simplesmente jogá-los por aí. As substâncias químicas não podem ser venenosas, quando algum produto faz mal à saúde temos que desenvolver algo novo. E ter em mente que tudo que entra na economia tem de circular, para que possamos usar de novo os mesmos recursos. Temos recursos limitados no planeta.

Jornalista: A ONU Ambiente tem pesquisado como o setor financeiro pode financiar a economia verde e não seguir na infraestrutura antiga. Como se pode mudar o fluxo de dinheiro nas grandes economias?
Solheim: Trabalhamos perto do G-7 [grupo que reúne as economias mais desenvolvidas] e do G-20 [grupo das maiores economias do mundo] em como regulamentar mercados financeiros para que entrem mais rápido na economia verde. Como promover a transparência das empresas para que fiquem claros seus ativos financeiros, quais os riscos ambientais e climáticos dos produtos. Outro tema que discutimos com o setor financeiro é Fintech [termo que, em inglês, funde finanças e tecnologia]. São produtos financeiros da nova economia digital que permitem que se compre greenbonds, mandar dinheiro para a família, comprar um carro, tudo na internet. Trata-se de uma completa mudança e quebra a tradição de como operam os bancos. Queremos ver como se pode deixar a economia mais verde.

Jornalista: O setor privado anda mais rápido que os governos?
Solheim: Sim. Ministérios de Finanças parecem ser as instituições mais conservadoras do mundo. O Google, por exemplo, terá 100% de energias renováveis em suas operações. O Walmart prometeu reduzir suas emissões em algo equivalente à de 220 milhões de carros. Na Europa, Nestlé e Unilever estão muito a frente dos governos quando se trata de proteção ambiental.

Jornalista: A seca no Quênia, onde fica a ONU Ambiental, é terrível. Como vê a crise dos refugiados?
Solheim: Creio que a crise surge de uma mistura de motivos, de conflitos de guerra à pobreza e degradação ambiental. Frequentemente é difícil distinguir qual a razão principal, é uma mistura disso tudo. No Quênia temos um grande número de refugiados somális que se deslocam por causa do terrorismo do movimento extremista Al-Shabab [grupo afiliado à rede Al-Qaeda]. Eles vêm por causa da guerra na Somália, da seca, da falta de condições de vida, dos impactos da mudança climática e degradação ambiental. O ambiente amplifica este quadro de conflito. A concorrência por recursos naturais é um dos fatores principais de muitos confrontos.

Jornalista: E as pessoas se deslocam.
Solheim: Sim. Os dez países que mais recebem refugiados no mundo são todos em desenvolvimento. A Turquia é de longe o país que mais recebe refugiados no mundo. Depois vem Etiópia, Quênia, Paquistão, Irã e Jordânia.

Jornalista: Como a ONU Ambiental vai trabalhar com o tema da paz?
Solheim: Somos parte do sistema da ONU para prevenir conflitos quando possível. Na América Latina fomos convidados pelo presidente Manoel Santos para ser parceiro-chave na reconstrução da Colômbia no pós-conflito, ajudando pessoas que têm que voltar ao seu local de origem e considerando que há muita destruição no campo e na floresta.

Jornalista: Como o senhor, um dos arquitetos do Fundo Amazônia, observa a tendência de alta no desmatamento no Brasil?
Solheim: Tenho uma visão otimista. No meio desta grande crise política e econômica que o Brasil atravessa, ainda há apoio às principais políticas ambientais. Houve grande esforço em conter o desmatamento da Amazônia, embora nos últimos dois anos tenha aumentado novamente. Acho que o Brasil irá sair da crise, restaurar o crescimento e continuar com boas políticas ambientais.

Jornalista: Como se pode mudar o descompasso em que a floresta só tem valor quando está no chão?

Solheim: Este é um assunto muito importante. Houve um progresso fantástico no longo prazo com rápida queda no desmatamento, o Brasil mostrou que pode ser feito. Acho que poderia se ter uma mistura de turismo, que não destrói a floresta, com aumento de produtividade na agricultura além de prover modo de vida às populações da Amazônia, ao mesmo tempo em que se fortalece a proteção da floresta. Tenho total confiança que isso pode ser feito. Vejo com prazer que o Brasil, mesmo no meio da crise, conseguiu ratificar o Acordo de Paris. Foi muito positivo.

Jornalista: No quandro atual da política mundial, com governos populistas ganhando o poder, como ficam as questões ambientais?
Solheim: É injusto dizer que temas ambientais pertencem aos partidos de esquerda. Alguns partidos conservadores são tão fortes nesta agenda quanto os outros. Não é uma questão da esquerda ou direita. Alguns atacam a crise migratória, não em ambiente. A proteção da natureza está na agenda de partidos conservadores.

Fonte: INSTITUTO INAN

 

 

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